Agora,
enfim, a imprensa mostrará se está à
altura dos desafios de um país lacerado pela corrupção
e desejoso de livrar-se do mal, ou se está conformada
com o papel de caixa de ressonância de um setor
da Polícia Federal. Por isso, duas pautas, a meu
ver, impõem-se neste momento.
Primeira: o que a eficiência da
Polícia Federal nas operações esconde?
Qual é o segredo? Apenas o Estado de S.Paulo chegou
perto, mas não muito, de mostrar que existe uma
PF dentro da PF; e que essa PF-2, por assim dizer, é
a responsável pelo sucesso das investigações
– Navalha, Hurricane e outras. Uma PF sem as graves
restrições materiais de outras unidades
policiais, com dinheiro, tempo, homens e tecnologia para
investigar. Essa PF conversa com o Ministério Público
e com o Judiciário, negocia prazos e estratégias,
organiza o trabalho para ajudar quem vem depois, monta
relatórios e dossiês muito completos. Sabe
qual é seu papel e tenta cumprir rigorosamente
a lei. Tem o apoio total da chefia.
Duas polícias na mesma polícia
Ela também escorrega, claro. Se
fosse mais ousada na apuração, a imprensa
chegaria aos fracassos da nova PF, o que é uma
boa história. Mas a melhor é que a PF-2
não quer nada com a outra, a PF-1, a da greve,
das filas em aeroportos e delegacias, dos 40 dias para
emitir um passaporte, dos inquéritos que vagam
como zumbis moribundos, sem rumo, sem fim, entre um pedido
de prorrogação de prazo e outro e ordens
do Ministério Público jamais cumpridas por
qualquer motivo fútil.
Em alguns inquéritos, só
falta o delegado da PF-1 dizer que não despachou
no prazo porque tinha de cortar o cabelo no Jassa. A esse
respeito, lembrou o Estadão um fato curioso: a
PF-2 não compartilha, nos estados, sequer os prédios
da PF-1. Deveria ter acrescentado que, na sede da PF-2
em Brasília, quem é da PF-1 não entra
sem estar devidamente autorizado: existe um rigoroso controle
eletrônico de acesso.
A imprensa, no entanto, ignorou até
agora essa história das duas polícias dentro
da mesma polícia e atribui à PF inteira
o que é próprio de um pequeno e seleto grupo.
Daí ser necessário mostrar o outro lado:
a PF que não funciona, a PF de todos os dias; a
PF que o cidadão brasileiro tem de enfrentar em
seu cotidiano; a PF que não investiga neca dulcineca
por comodismo; a PF que finge trabalhar em seus prédios
imponentes, caros e inúteis.
Os desafios pós-navalha
A outra pauta é mais complexa.
A todo tempo se busca a raiz da impunidade, só
que a imprensa nunca desceu fundo nessas explorações.
Em geral, ouvem-se alguns especialistas de meia tigela,
os mesmos de sempre, representantes de interesses concretos,
mas é raro um jornalista embrenhar-se pessoalmente
no cotidiano de uma vara criminal ou de um tribunal de
justiça. Quase nunca, a rigor, o repórter
vai a campo recolher informações.
Lembro-me de que na Gazeta Mercantil,
no começo da década, dávamos muitos
furos com simples visitas ao fórum, espiadas em
processos importantes e conversas com os funcionários
para saber quando "o doutor" (o juiz) iria despachar.
Dá resultado, pois o Judiciário é
o mais transparente dos poderes na atividade-fim (o que
se anula com o segredo furioso na atividade-meio), tudo
está nos autos e os autos são públicos
– afora os excepcionais casos de sigilo. O pessoal
dos cartórios judiciais tem, às vezes, uma
cara ameaçadora, mas são pessoas normais,
que geralmente tratam bem quem os trata bem.
Agora, pergunto: por que não fazer
reportagens especiais, com o dia-a-dia de investigadores,
procuradores e juízes? Qual o motivo de confiar
tanto em especialistas de araque? As grandes reportagens
que mostrem "a Justiça por dentro", com
depoimentos de pessoas reais (juízes, promotores,
policiais, acusados, testemunhas, funcionários,
advogados etc.) em situações reais (audiências,
reuniões, despachos etc.), podem esclarecer ao
público inúmeros pontos do mau funcionamento
do sistema de justiça criminal e retirar o debate
da esfera dos iluminados de sempre.
Seria preciso, apenas, escalar os melhores
para esse serviço. Pôr os correspondentes
internacionais no jogo seria um excelente complemento,
para apontar em que o Brasil se distingue, de verdade,
de países mais sérios. Com uma ressalva:
nada dos velhos setoristas de polícia ou de justiça.
Fundamental ter pouco ou nenhum contato com o mundo forense-policial,
no qual os vícios se aprendem muito rápido
– tão rápido quanto o desvanescer
das virtudes. A cumplicidade entre fontes e repórteres
nessa área e o instinto de sobrevivência
do setorista, sempre de olho na próxima exclusiva,
contaminariam a investigação jornalística.
A
conferir se a imprensa tem fôlego, competência
e seriedade para enfrentar os desafios pós-navalha.
Ou se espera a próxima operação para
ser um mísero repositório de off convenientes.
Fonte: Observatório da Imprensa
www.observatoriodaimprensa.com.br