A
cada edição de um Pan, heróis da
América se credenciam a deuses do esporte. Isso
ocorre desde a estréia, em 1951, quando Adhemar
Ferreira da Silva (salto triplo) e Robert Richards (salto
com vara) fizeram de Buenos Aires o prenúncio de
suas conquistas na Olimpíada de Helsinque, no ano
seguinte. Computando-se apenas modalidades individuais,
cerca de 200 astros e estrelas do esporte já participaram
dos Jogos Pan-americanos.
Nível
cada vez mais alto
Alguns
dos mais conhecidos são: Cassius Clay (1959), Mark
Spitz (1967), Carl Lewis (1987), Adhemar Ferreira da Silva
(1951/55/59), Al Oerter (1959), Bob Beamon (1967), Bruce
Jenner (1975), Evander Holyfield (1983), Evelyn Ashford
(1979), Felix Savon (1987/91/95), Frank Shorter (1971),
Greg Louganis (1979/83), Jackie Joyner-Kersee (1987),
Javier Sotomayor (1987/91/95/99), João Carlos de
Oliveira (1975/79), Joaquim Cruz (1987/95), Sugar Ray
Leonard (1975), Teófilo Stevenson (1975/79), Robert
Scheidt (1991/95/99), Maria Esther Bueno (1955/63), Althea
Gibson (1959), Aurélio Miguel (1987), Nélson
Pessoa (1967)...
Se
forem computados também os destaques dos esportes
coletivos, a lista dobra, pois teríamos campeões
olímpicos e/ou famosos profissionais do futebol,
basquete, vôlei, beisebol... Carlos Alberto Torres,
Jairzinho e Gérson, que em 1970 formaram a melhor
Seleção Brasileira de todos os tempos, sete
anos antes foram campeões do Pan de São
Paulo. E o maior jogador de basquete da história,
Michael Jordan, ajudou os Estados Unidos a ganhar o ouro
do Pan de Caracas, em 1983.
Há
oscilações ao longo da história,
mas a grosso modo pode-se dizer que a cada Pan-americano
o nível técnico da competição
se eleva. Quem tivesse o cuidado de comparar os resultados
do Pan de Santo Domingo, em 2003, com a Olimpíada
de Atenas, em 2004, constataria que uma parcela respeitável
dos atletas que subiram no pódio na República
Dominicana, repetiram a proeza na Grécia.
Em
Atenas, todas as nove medalhas de ouro cubanas foram conquistadas
por quem participou dos Jogos de Santo Domingo. Foram
elas: Osleidys Menendez, lançamento do dardo; Yumileide
Cumba, arremesso do peso; Yandro Miguel Quintana, luta
livre, peso galo, e os pugilistas Guillermo Rigondeaux,
peso galo; Yan Bartelemy Varela, mosca-ligeiro; Yuriorkis
Gamboa Toledano, mosca; Mario César Kindelan, leve,
e Odlanier Solis Fonte, pesado. A nona medalha veio da
equipe de beisebol.
Dos
Estados Unidos, a atleta Joanna Hayes (100 metros com
barreiras), o lutador de taekwondo Steven Lopez e o barco
oito com timoneiro bisaram em Atenas a vitória
que obtiveram em Santo Domingo. O mesmo aconteceu com
o dominicano Felix Sanchez, rei dos 400 metros com barreiras,
e o brasileiro Robert Scheidt, soberano da classe Laser.
Tempo,
paciência e análise
Outros
dois norte-americanos ganharam em Atenas o ouro que não
conseguiram em Santo Domingo: Gary Hall Junior havia perdido
a final dos 50 metros nado livre para o brasileiro Fernando
Scherer no Pan de 2003, ficando com a medalha de prata,
enquanto Cael Anderson, da categoria peso médio
da luta livre, tinha sido apenas medalha de bronze no
Pan.
Se
estendermos as comparações a medalhas de
prata e bronze, então o copydesk do site vai ter
de cortar metade do texto. Isso sem falar em recordes
mundiais, dois deles estabelecidos por saltadores de triplo
do Brasil: Adhemar Ferreira da Silva em 1955 e João
Carlos de Oliveira em 1975, ambos no México. Só
na natação de Winnipeg/1967, que contou
com a presença do fenômeno Mark Spitz, foram
batidos 14 recordes mundiais.
É
óbvio que a Olimpíada, por reunir os melhores
atletas do planeta, tem, obrigatoriamente, de ter um nível
mais elevado. Porém, há campeões
olímpicos, como o cubano Alberto Juantorena (400
e 800 metros em Montreal), que tentaram e não conseguiram
ganhar uma medalha de ouro em Pan-americanos, enquanto
atletas que passaram despercebidos no Pan acabaram vencendo
a Olimpíada – caso do norte-americano Bob
Beamon, prata em Winnipeg/1967, ouro e recorde mundial
no salto triplo na Olimpíada do México/1968.
Chega
a ser curioso descobrir, entre os medalhistas pan-americanos
de prata e bronze, aqueles que na Olimpíada seguinte
se tornaram deuses do esporte. Claro que para isso é
preciso tempo, paciência e uma análise mais
apurada dos resultados, e isso poucos querem fazer. O
mais fácil é seguir o rebanho e afirmar
que o Pan-americano pouco vale e que "os países
enviam suas segundas equipes" à competição,
o que é uma grande mentira.
No
mínimo 80% dos melhores
Cuba,
que pode ser considerada uma potência do esporte,
inscreve seus melhores atletas. Assim como Brasil, México,
Argentina, Colômbia, Venezuela... Das 42 modalidades
que compõem o calendário do Pan, os Estados
Unidos são o único país que pode
se dar ao luxo de ser representado em algumas por atletas
que não seriam os titulares. Mas é importante
frisar que os norte-americanos dominam também as
Olimpíadas e que mesmo o seu segundo time estaria
entre os mais poderosos da Terra.
Os
Estados Unidos costumam inscrever atletas jovens, principalmente
na natação e no atletismo, mas isso está
longe de querer dizer que são atletas inferiores.
Que se espere até a próxima Olimpíada
para se ter certeza de seu potencial. Muitos estarão
surpreendendo o mundo, como a história tem mostrado.
Li
que um dirigente do Canadá desdenhou da possibilidade
de seu país ser ultrapassado pelo Brasil no quadro
de medalhas, perdendo finalmente o terceiro lugar que
mantém desde 1967. Porém, tenho certeza
de que o comitê olímpico canadense gostaria
de reunir seus melhores atletas. Acontece que sua equipe
de natação deve seguir outro calendário
de competições, priorizando o Campeonato
Mundial.
Competição
que se basta
Esse
problema – brigar com o calendário de cada
modalidade e com o crescente profissionalismo no esporte
– não é só do Pan, mas também
dos Jogos Olímpicos, que, não conseguem
agregar os melhores atletas do mundo em várias
modalidades, como futebol, basquete, beisebol, tênis,
boxe. Sem contar que não inclui em seu programa
um dos esportes mais praticados no mundo, que é
o rugby.
Portanto,
que não se venha com preciosismos e comparações
esdrúxulas. A Olimpíada é a Olimpíada,
com sua importância ímpar. Ela reúne
a força da Europa desenvolvida, a velocidade da
África, a disciplina da Ásia, a versatilidade
das Américas e da Oceania. Ela tem a obrigação
de ser o sonho final de todo atleta de altíssimo
nível. Mas nem por isso ela torna obsoletos os
Jogos Pan-americanos.
Por
sua história, pelo que representam para a grande
maioria de seus participantes, os Jogos Pan-americanos
têm uma importância única – e
por isso são imprescindíveis. Pode-se dizer
que a competição já faz parte da
cadeia ecológica global do esporte. Sem ela haveria
um desequilíbrio esportivo no mundo e as diferenças
se acentuariam. Talvez o Pan seja apenas um degrau importante
para atletas de um ou outro país, mas para todos
os outros é o último degrau, o máximo
do sonho.
Para
dezenas de países, para milhares de atletas e para
milhões de aficionados, o Pan-americano é
a verdadeira Olimpíada, a Olimpíada real
e viável. Olhe o quadro de medalhas e perceba que
países como Paraguai e Bolívia jamais conseguiram
ao menos uma medalha de ouro pan-americana. Para seus
atletas, a Olimpíada das Américas é
a única palpável.
Mas
o Pan não serve apenas aos sonhos de esforçados
coadjuvantes. O norte-americano Steve Prefontaine, ídolo
de uma geração, atleta que revolucionou
o estilo de correr provas longas – e que morreu
aos 24 anos, vítima de um acidente automobilístico
–, jamais conseguiu uma medalha olímpica.
Apesar de bater vários recordes mundiais, uma de
suas mais importantes vitórias internacionais aconteceu
nos 5.000 metros do Pan de Cali/1971 (a vida de Prefontaine
foi contada no filme Um nome sem limites, de 1996, nas
locadoras).
Finalmente,
não acredito no descaso dos Estados Unidos com
relação ao Pan. O que acontece é
que sabem administrar muito bem a liderança. Nem
sempre foi assim. Depois de perder para a Argentina na
primeira edição dos Jogos, em Buenos Aires,
o país se mobilizou para ajudar na preparação
dos atletas. A bela atriz Grace Kelly, filha do remador
campeão olímpico John B. Kelly e irmã
do remador John B. Kelly Jr., que participaria do Pan
de 1955, no México, liderou uma campanha nacional
para arrecadar fundos para o então pobre comitê
olímpico norte-americano.
Grace
convenceu os produtores do filme The country girl, no
qual ela era a estrela, a doar a renda da estréia
para os bravos atletas ianques. E assim, amparados pelo
patriotismo de uma nação, os Estados Unidos
iniciaram a hegemonia esportiva no continente que prossegue
até hoje – e que só foi interrompida
por Cuba nos Jogos Pan-americanos de 1991, em Havana.
Pontos
positivos
O
jornalista Anderson Rangel, da Forbes, queria saber se
em outros Pans também houve atraso de obras e orçamentos
estourados, como no Rio. Sim, houve. Infelizmente, é
algo comum. Acredito que seja mais por má organização
do que por má intenção, mas por via
das dúvidas é bom contar com uma auditoria
para acompanhar estes eventos. Não que eu não
confie em dirigentes esportivos cariocas, mas...
Agora,
algumas coisas, positivas, são certas:
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O Pan colocará o Brasil – a história
prova – em um outro patamar esportivo, a caminho
de ser o que muitos, como eu, sonham, que é o de
se tornar uma potência olímpica.
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O número de praticantes de esporte no país
crescerá a curto, médio e longo prazos.
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Está provado que a prática esportiva afasta
o jovem da criminalidade. Neste aspecto, estou certo de
que um evento como este salva muitas vidas.
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Está provado que a prática esportiva melhora
a saúde e aumenta a expectativa de vida. E uma
competição como esta, com a repercussão
que terá, estimulará as pessoas a mexer
o esqueleto.
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Especialistas em marketing afirmam que o mercado esportivo
é o que mais crescerá neste início
de milênio. O Pan pode acelerar esse processo no
Brasil. Isso implica mais projetos, patrocínios,
emprego.
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Muitas modalidades, hoje praticamente desconhecidas, terão
uma grande chance de dar um salto de popularidade, engordando
esse mercado esportivo.
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Sorrir é melhor do que chorar, e o Pan é
uma Olimpíada que dá muitas medalhas de
ouro ao Brasil. Não se compete com o mundo todo,
mas se compete com grandes rivais, entre eles a Argentina,
a qual, no cômputo geral de medalhas, ainda está
bem à frente do Brasil. Na soma de todos os Pans,
o Brasil está em quinto, 60 medalhas de ouro atrás
da Argentina. Ainda não será desta vez que
dará para fazer a ultrapassagem. Mas ao menos o
terceiro lugar está no papo, para dor-de-cotovelo
do Canadá.
Ficou
interessado? Pois há muito, muito mais informações,
além de lindas fotos, nas 400 páginas de
Heróis da América, a história completa
dos Jogos Pan-americanos, livro a ser lançado no
começo de abril pela Editora Planeta.